Steve Jobs pouco teve a ver com o processo criativo dos filmes da Pixar.
Foi sim muito importante na parte empresarial, batendo de frente com os chefões da Disney e investindo pesadas quantias de dinheiro, logo que a comprou de George Lucas, em seu início. A seu modo, foi um dos grandes responsáveis por tornar a Pixar uma marca importante e poderosa. Mas participou pouco da criação dos filmes.
Mesmo assim, é interessante ver como algumas de suas frases e idéias estão presentes nas animações da Pixar.
Quando tentava motivar a equipe que criou o primeiro Macintosh, na década de 80, Steve Jobs costumava dizer que, em tudo que se faz, “o importante é a viagem” (ou seja, a experiência de fazer algo tem que ser ainda mais prazerosa que o resultado atingido).
Essa acabou tornando-se uma frase conhecida sua, que foi também a frase tema de Carros.
“Na vida, o importante é a viagem”.
Steve Jobs dizia que a equipe original do Mac era formada por “artistas e piratas”. Isso tornou-se um lema da equipe, que ficava isolada do resto da Apple, num prédio à parte. Em dado momento, eles chegaram a hastear uma bandeira pirata sobre o prédio, numa ato de brincadeira e rebeldia simultâneas.
Jobs sempre se considerou um artista, e também um pirata (um rebelde), e imprimia esses espírito em sua equipe.
Assistindo Ratatouille, outro dia, me surpreendi ao ver a personagem Colette descrever a equipe de cozinheiros. Falava da origem diferente de cada cozinheiro, da paixão pela cozinha, e por fim declarava, empolgada: “Somos artistas! Piratas!”.
A conexão entre aquela fala e os relatos na biografia de Jobs parecia óbvia.
Além do lado empresarial, foi Jobs quem projetou o famoso prédio da Pixar. O edifício foi pensado de forma a ter uma grande área de convivência que, por sua arquitetura, promoveria encontros ao acaso, entre os passantes. Esses encontros, segundo Jobs, estimulariam a troca de idéias e a criatividade. Steve dedicou-se com tamanho cuidado e atenção aos detalhes da contrução, que Lasseter dizia que o prédio era “o filme de Steve”. Como o próprio Lasseter constatou, de fato o ambiente promovia os encontros casuais criativos.
Quase terminando a biografia de Steve Jobs, começa a dar uma ponta de tristeza.
Não só pelo tom melancólico que a narrativa adquire, agora que se aproxima de sua morte. Também por tratar-se de um dos melhores livros que já li, e está acabando.
Sempre achei estranho quem venerava demais Steve Jobs, mas lendo sua biografia é possível entender porque seus feitos causavam tanto alvoroço.
Obsessivo, desequilibrado, visionário, gênio. Steve Jobs não escapou ao destino infalível, que todos compartilhamos. Mas com certeza sua viagem foi notável.


novembro 8, 2011 at 11:41 pm
Olá, acabei de ver este post através do link de um amigo no Facebook.
Fiquei com vontade de dar meu pitaco. Acho que o legado de Steve Jobs à Pixar é um pouco maior do que deixa transparecer a nova biografia. Os caras tem no estúdio, assim como na Apple, uma mentalidade de tolerância zero com a baixa qualidade – prova disso são filmes refeitos por inteiro como Toy Story 2 ou projetos que sequer viram a luz do dia; eles tem uma cultura de inovação e originalidade incomum à Hollywood, em que a norma é repetir uma fórmula até acabar com tudo que ela teve de bom um dia. Nesse sentido, Steve Jobs foi muito mais que um empresário comum. Digamos que a Pixar continuasse como uma empresa de George Lucas – será que eles teriam produzido filmes como ‘Ratatouille’ ou mais uma versão insossa de algum pedacinho do universo de Star Wars? Ou então imagine um perfil mais ‘investidor’, um Eike Batista. A falta de comprometimento em criar e apostar no novo seria um impeditivo poderoso demais para uma empresa que se arrisca tanto criativamente. Na minha opinião, o dono ou CEO de uma empresa não precisa necessariamente ser melhor que seus colegas e funcionários no que eles sabem fazer. Precisa, sim, saber inspirar e criar as condições para que a mágica aconteça. Me chamou muito a atenção um artigo recente da New Yorker sobre um dos cérebros da Pixar, o diretor e roteirista Andrew Stanton. Eles expõem um lado pouco conhecido do estúdio, o duro e longo processo de aprovação e crítica interna dos filmes. Os caras são absolutamente intrasigentes na busca pelo tom certo, a cena perfeita, a estrutura ideal. E esses são alguns dos traços do DNA obsessivo de um certo hippie frutívoro mal-criado e genial. Abraço!
novembro 9, 2011 at 9:40 am
Tem razão, Saulo! As semelhanças entre o espírito criativo e exigente da Pixar e a forma de Jobs pensar e agir não podem ser mera coincidência.
A personalidade desse somou-se à paixão de John Lasseter, outro artista notável, e o casamento só poderia render coisas boas!
Forte abraço!